30 Novembro 2009

ele vai me tecendo em escaras como se afagasse com machucados.

ele me cobriu do frio de mim.

o que me estorva
é dever silêncios
ao teu recato.

a marca dos teus dentes
no território público
dos nossos segredos.

Madrugada adentro,
vida afora.

gosto
do olho
que olha
da rua

a ele,
que me fez carne
ao soprar-me
o verbo.

29 Novembro 2009

A solidão que eu cultivo com o afinco de uma operária da dor.

era de se esperar
que você tivesse
por mim
um apelo
qualquer
do apreço
de nós.

Para Catita.

nos olhos d´água
o fogo raso
de flambar
um coração.

um passo
em falso
no talho íngreme
do por acaso.

Eu não me importo
Com pretensões aleatórias
Ao fato – ao falo

E calo.

Acho bonito destoar assim
tão secamente
do emaranhado de rios
que serpenteiam
o espaço cão
da minha cabeça

Me diziam que

se queimava

era porque valia

o sangue.



Mas mentiram.

quando me contaram

que a vida era assim

eu achei por bem

desentender.

Encheu o taque com água e sabão. Preparou os nós dos dedos. E esperou um sol que nunca veio.

Vou remoendo epígrafes,
louvando demônios,
flertando desterros,
Querendo te ver.

Ele riu de um piada trágica e eu achei florido.
Por bem, fui embora pra caçar trevos de quatro folhas.
Não nos vimos mais em nenhum destino.

No canto da mesa,
fumaça de risco
umbigo em ciclos
vagando na blusa vazia.
Ela me disse que não adiantava mais morrer
e me pediu outro trago amargo
do doce que eu nunca ofereci.

Para A.M., na noite que vela.

Das tempestades que não criei
ao gozo que eu não quis.

Lapsos da tua mão.

Enquanto a onda curva o Arpoador,
- que o tempo desenhou tão habilmente –
eu vou sorrindo a dor de me deixar partir.

Ele estende os dedos e diz, entrecortes:
- não era eu quem você queria agora.
..e eu acho por bem não negar,
mesmo que seja tão evidente,
tão cabal,
o fim da espera. E a espera do fim.

Fomos uma morte prematura.
Eu, afogueada, morri de intensidade.
Você, sereno, entupiu-se de tempo.

Vago, agora, por entre amores.
Daqui até pra sempre. Desenlace.
Amém.

02 Outubro 2009

http://twitter.com/giovanamf

Minhas mulheres: Dona Virgínia

Dona Virgínia enterrou um filho. Fugiu do Rio com o outro pra escapar da violência do marido. Já em Sp, se estabeleceu em dias de trabalho e noites inquestionáveis. Virou atriz de filmes do Zé do Caixão. Foi da umbanda, do candomblé. Foi seicho no ie. Só não foi evangélica. Agora, mora na vida dos padres, é habituè de uma igreja no centro, usa camisetas com o rosto da virgem e me diz que preciso rezar para sobreviver ao caos dos meus dias (desdenhando do meu ateísmo e da minha opção pelo precipício).
Jura que morre até o final do ano, assim como jurou em 1999, 2000, 2001, 2002...

01 Outubro 2009

Pior burro é aquele que não ousou se estabacar no chão.

...

Por essa lógica, eu sou hiper inteligente.

:-)

É divertido.

30 Setembro 2009

Minhas mulheres: Isadora

Isadora, esse nome explosivo, é o dela.

Serve cervejas e quetais para a burguesia pseudo-intelectual que frequenta um bar no centro de Paraty. Eu a conheci num derradeiro dia de uma paixão incipiente (a paixão, pobre dela, morreria de assalto um dia depois provando, assim, a sua prematuridade de risco).

Mas Isadora. Isadora tinha no braço, tatuado no mais grosso traço negro, um nome de homem: Magno.

Curiosa para saber da marca, perguntei:

- Quem é este que vc traz no braço?

- Meu ex-marido.

- Ex?

- É. Mas a minha vingança é que ele também tem o meu nome tatuado no braço.

- E vc está casada?

- Tô. Pus até barriga, olha só.

E acarinha o ventre anafado e moreno, pouco escondido na blusa vermelha de laço e decote, com o mesmo braço que carrega a presença do homem de outrora.

A vida tem lá as suas combinações...

16 Setembro 2009

Acabou.

Acabou a novela. E acabou tanta coisa. Foi um tempo de acabar.

Não que seja ruim avistar o novo, não que seja mais dolorido do que é possível aguentar - até porque dolorido é tudo, do nascer ao morrer, quando se faz uma opção pela navalha. É que demora até o tempo acomodar as novidades e a serotonina ir se tomando, arredondando as agulhas. No final sempre dá certo, que eu sou a pessimista mais feliz que eu conheço.

O que eu posso te dizer, parceiro, é que estou grávida de um casulo, prenhe de uma borboleta. Logo, logo a lagarta vence a fase e se arrebenta em asas multicoloridas!

Por enquanto, férias. Volto ao trabalho no dia 04 de outubro. No momento, São Paulo é meu teto, cinza como são todos os meus abrigos. Viagem só em dezembro, quando terei outro descanso. Agora, beibe, é tempo de familiar.

E, enfim, retomar a nau deste barco.

Até logo ali.

30 Julho 2009

Poesia é adição de afeto. É saber que há uma descoberta por baixo de cada simbiose de letras, é entender que aquele conjunto ali, tão bem disposto, quer dizer mais do que a ordem que o olho alcança, quer revirar alguma coisa que está guardada desde tempos, desde sempre, desde a proteção do ventre materno, mas que pulsa e tomba a alma, causa espanto no espanto e arrepio no arrepio do corpo. Poesia, pra ser poesia, tem que dar angústia, tem que desmentir, tem que provocar, tem que dar náusea, tem que ter dor, dor de partir esse espaço escondido e que só se revela quando a língua toca o ponto exato. E não importa qual o sotaque que carrega o fardo de fazer revelar, poesia se entende mesmo sem saber ler. Saberia, pois, eu ler em latim uma poesia, mesmo que esteja ele morto e seja eu ignorante. E saberia porque só há uma coisa que possibilita o verbo: o silêncio. E este...tão humano.